Microcrédito em Boa Vista: um mar de desafios e oportunidades

boa vista

Já sabemos que ter acesso a serviços financeiros de qualidade no Brasil é algo difícil. Com o objetivo de apresentar nossa solução de acesso a crédito fomos a Boa Vista, capital de Roraima, para participar do Inspira Boa Vista nos dias 3 e 4 de agosto. O evento, organizado pelo CIEDS, em parceria com a Fundação IOCHPE, contou com a presença de diversos negócios e ONGs, que apresentaram soluções voltadas ao empreendedor de baixa renda e principalmente venezuelano.

Nosso sócio cofundador Lemuel Simis estava presente no evento, realizando atendimentos e conversou com mais de 70 pessoas durante os dois dias de atividades. O objetivo inicial era mapear talentos e entender quem teria o perfil para tomar um empréstimo pela Firgun. A maioria das pessoas que passaram pelo stand eram refugiados venezuelanos e um deles chamou a atenção. Compartilhamos a história dele nesse texto.


Já leu?

Negócios que fazem o bem: possíveis e lucrativos

Microcrédito coletivo: conheça essa nova modalidade de investimento social


Contexto

A crise social, econômica e política da Venezuela fez com que milhões de cidadãos saíssem do país caribenho. Segundo a OEA, o número de imigrantes venezuelanos pode superar 5 milhões em 2019. Aqui no Brasil estima-se que sejam 100 mil, dos quais 40 mil estão em Boa Vista. Isso representa quase 10% da população da cidade. Muitos buscam melhores condições de vida. São os imigrantes. Outros, por motivos de perseguição, não têm outra opção se não fugir para manter sua integridade física. São os refugiados.

Eles chegam ao Brasil e moram em abrigos. São espaços grandes com pequenas tendas para duas pessoas cada. Nesses lugares eles recebem um teto improvisado e alimentação, o mínimo para sobreviver. Para entrar e sair dos abrigos precisam passar por um posto de checagem.

Percebemos que ter um CPF é relativamente fácil, mas ter uma conta bancária nem tanto. É preciso ter comprovante de residência para isso, o que dificulta o processo para eles. A falta de acesso a serviços financeiros básicos limita a liberdade econômica, mais uma dificuldade para quem não está em seu país natal, não tem contatos profissionais e não fala a língua do novo país.

Ramon Castro um exemplo de resiliência

Depois de almoçar, Lemuel voltou à mesa da Firgun e ele já estava lá, sentado, esperando para conversar. Seu nome era Ramon Castro. Ramon tem 51 anos, a pele parda e vestia uma camiseta preta e amarela listrada. Ele contou que estava há pouco mais de um ano em Boa Vista e quando perguntado qual era seu talento disse de uma vez: “vender!”.

Na Venezuela, há 10 anos atrás Ramon era dono de uma loja de sapatos, um negócio familiar, onde trabalhava com seus filhos e também empregava cerca de dez outros funcionários. Ele tinha uma vida boa, contou que morava num bairro de classe média alta e tinha bastante conforto. Mas as coisas começaram a piorar. “Há dez anos atrás eu vivia na Venezuela”, dando a entender que a partir desse período começou a sobreviver.

O recomeço de Ramon em Boa Vista

Em 2009 foi aprovado o referendo constitucional venezuelano, que permitiu a reeleição ilimitada de qualquer ocupante de cargo público do país. Hugo Chávez foi eleito pela terceira vez consecutiva e a partir daí Ramon viu a situação complicar. O mercado foi piorando e o empreendedor percebeu que muitos negócios estavam sendo desapropriados pelo Estado. Infelizmente Ramon precisou fechar as portas e veio ao Brasil para tentar uma nova vida. Um de seus três filhos veio com ele.

O empreendedor que antes tinha uma vida próspera com sua loja de sapatos hoje vende meias de porta em porta. Como tantos outros venezuelanos ele não tem muitas opções de trabalho. “Me sinto preso”, comentou. Ramon tem visão de negócio: investe R$2.000 de seu faturamento mensal no próprio negócio e consegue viver com R$1.400 por mês. O pouco que sobra, R$400, manda para sua família que ainda está na Venezuela. Ele pretende trazer todos para cá e não deseja voltar ao seu país de origem. “Antes vendia sapatos, agora vendo meias e vou reconstruir minha vida aqui”, disse com bom humor.

Percepções e aprendizados em Boa Vista

Por ter fronteira com a Venezuela, a cidade de Boa Vista recebeu e recebe um alto número de refugiados e imigrantes venezuelanos.  A maioria ainda não tem conta bancária, o que será um desafio a mais para o desenvolvimento econômico do ecossistema. Outro desafio, já presente no dia a dia da Firgun com empreendedores brasileiros, é a ausência de informações financeiras de entradas e saídas do negócio. Será preciso estimular o hábito de fazer anotações em um livro caixa. A maioria tem interesse em mandar dinheiro para familiares na Venezuela.

O potencial a ser explorado é bom, visto que não existe oferta de serviços financeiros acessíveis, relacionados a acesso a crédito. No entanto o desafio é tão grande quanto a oportunidade, devido às percepções aqui citadas.

Além disso também houve bom intercambio com as outras organizações presentes. Com destaque para ADRA, organização local sem fins lucrativos. Suas atividades estão na alçada da ajuda humanitária e recentemente um curso de capacitação empreendedora está em desenvolvimento. Projetos de geração de renda como esse e aqueles oferecidos pelo CIEDS são a chave que vai destravar o desenvolvimento econômico na cidade.

O que esperamos do futuro

A Firgun é um negócio de impacto social. Nosso trabalho é facilitar o acesso a microcrédito por meio de uma plataforma de investimentos coletivos. A cidade de Boa Vista carece de oportunidades de crédito coerentes com a realidade dos mais pobres e dos venezuelanos que não param de chegar.

Entendemos que investir no empreendedorismo nessas circunstâncias é investir no desenvolvimento econômico, na geração de empregos e melhoria da qualidade de vida de quem mais precisa. Assim geramos impacto social ao mesmo tempo em que não deixamos de lado ganhos financeiros saudáveis.

Você pode fazer parte desse movimento! Invista valores a partir de R$25, faça a diferença na vida de um microempreendedor e tenha rentabilidades de até 12% ao ano.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *