Empreendedoras negras: as primeiras a começarem um negócio do zero

empreendedoras negras

As empreendedoras negras foram as primeiras a desenvolverem um negócio do zero no Brasil. Nosso país foi o último do mundo a abolir a escravidão, em 1888, há apenas quatro gerações. Por isso sentimos reflexos até hoje desse nefasto período histórico. O racismo estrutural ainda perdura de forma velada e as empreendedoras negras enfrentam um preconceito duplo: de gênero, por serem mulheres, e o de racismo, por serem negras.

Nesse texto fazemos um resgate histórico da mulher negra, de seu potencial empreendedor, traçamos um paralelo com a realidade atual do país e sugerimos uma solução para que cada vez mais empreendedoras negras tenham acesso às oportunidades de investimento que merecem.

Depois que abolimos a escravidão não houve o desenvolvimento de políticas públicas para garantir a inserção das pessoas negras em atividades econômicas, elas foram abandonadas à própria sorte e marginalizadas. Ficaram sem emprego, sem moradia, enfim, sem condições mínimas de sobrevivência. Por isso, pessoas negras passaram a realizar diversas formas de trabalho e prestação de serviços para proverem o próprio sustento. Nesse panorama a necessidade se une à oportunidade e isso dá origem ao empreendedorismo de pessoas negras.

Qualquer semelhança com a realidade atual não é mera coincidência.


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Um pouco da história da mulher negra no Brasil

Em uma sociedade escravagista a mulher negra era considerada um objeto para seus senhores, tendo seu trabalho explorado, muitas vezes, até a morte. A mulher negra trabalhava nos afazeres domésticos, nas zonas rurais e centros urbanos. Elas eram responsáveis pelo comércio de doces, bolos, frutos, queijos e hortaliças. Além disso levavam a correspondência de um lugar para outro, enquanto vendiam seus produtos e realizavam outros serviços.

Nesse período elas não tinham poder de escolha e todos os ganhos eram devidos aos seus senhores. Em raras ocasiões elas ganhavam tanto que conseguiam guardar parte do dinheiro para comprar sua liberdade. Com a abolição da escravidão essas mulheres se tornaram as primeiras empreendedoras do Brasil.

Com o fim da escravidão veio a época das imigrações. Um período em que as autoridades tentaram embranquecer a população e possibilitar a oferta de mão de obra qualificada e de custos baixos. Não havia direitos trabalhistas. Mulheres grávidas e crianças trabalhavam por horas a fio e recebiam como compensação os piores tratamentos e salários. As mulheres negras continuavam a ocupar cargos de trabalho em sua maioria domésticos e informais.

Uma evolução significativa veio apenas com a constituição Federal de 1988, marco que declarou a igualdade entre homens e mulheres com a finalidade de superar desigualdades de gênero e raça, principalmente no mercado de trabalho. Embora as mulheres negras empreendam há muito tempo na informalidade para garantir o sustento de suas famílias, foi apenas há cerca de duas décadas que o empreendedorismo de mulheres negras começou a ser mais difundido no país.

Empreendedoras negras: pioneiras no Brasil

O empreendedorismo é uma atividade de pessoas ousadas que estimulam o progresso econômico, desenvolvendo novas formas de atuar e influenciar o mercado. O empreendedorismo é muito mais que apenas uma ideia, é executar um negócio na prática, gerando renda e estabilidade econômica por meio da venda de produtos ou serviços que atendem às necessidades do mercado.

É por isso que podemos afirmar, sem pestanejar, que as empreendedoras negras, principalmente as quitandeiras do período colonial, foram as primeiras pessoas a desenvolverem um negócio próprio no país. Em meio a adversidades sem igual elas souberam identificar oportunidades de mercado e utilizaram suas habilidades e recursos da terra para gerar ganhos, percebendo às necessidades do mercado da época. Imagine a perseverança e resiliência das empreendedoras negras há 150 anos atrás, é admirável. Elas enfrentaram barreiras de todo tipo e conseguiram com sucesso desenvolver seus negócios do zero.

Parte dessas empreendedoras, embora exploradas, conseguiram acumular ganhos a ponto de comprar a própria alforria e no período pós-abolição conseguiam garantir sua subsistência e a de suas famílias. Principalmente por meio do cultivo e venda de produtos da terra, as empreendedoras negras demonstraram muita atitude e facilidade em perceber oportunidades de negócio. Apesar dessa notável virtude elas não foram inseridas pelas classes dominantes da época, levando consigo os estigmas de exclusão social por serem mulheres e negras.

Ainda hoje é possível identificar os mesmos desafios. Por isso temos muito que aprender com as empreendedoras negras: mesmo em momentos de crise é possível encontrar alternativas e empreender. É importante saber nosso passado para entender o presente e planejar o futuro.

Empreendedoras negras nos dias de hoje

Hoje em dia podemos perceber um reflexo do período colonial brasileiro. A taxa de desemprego das mulheres negras é o dobro da verificada entre os homens brancos e está acima da verificada entre as brancas. O número de mulheres negras desalentadas é mais que o triplo do número de homens brancos desalentados.

Mulheres negras ganham em média R$1.476 por mês, menos que a média dos homens brancos (R$3.364), que das mulheres brancas (R$2.529) e dos homens negros (R$2.529). Apesar disso as mulheres negras formam o maior grupo da população. Entre pretas e pardas, temos mais de 60 milhões de pessoas no país, 28% dos brasileiros. Mais de um quarto de todas as mulheres negras do Brasil trabalham com serviços domésticos ou de limpeza.

Ter um negócio próprio continua sendo para as mulheres negras um misto de necessidade e oportunidade. Dessa forma, infelizmente, o negócio tende a ser mais precário, pois tem menos planejamento e geralmente a pessoa não tem outra opção de renda. É comum que as empreendedoras negras comecem seus negócios após perderem o emprego. No entanto esse perfil está mudando. Hoje a porcentagem de mulheres negras com ensino superior é maior do que entre homens negros e estão galgando níveis de qualificação cada vez mais altos. Elas tem potência!

As empreendedoras negras são 17% de todos os empreendedores no Brasil, mas ganham menos que os outros grupos, em média R$1.384 por mês. Isso equivale a metade do rendimento de empreendedoras brancas e 42% do faturamento de homens brancos. Além disso estão sujeitas à informalidade: somente 21% delas têm CNPJ. A porcentagem entre as brancas é o dobro. Isso restringe o acesso ao mercado formal e principalmente ao crédito.

O acesso a crédito para empreendedoras negras

Essa é uma dificuldade para elas. Apesar de terem, muitas vezes, negócios lucrativos e sustentáveis financeiramente, não conseguem acesso a crédito coerente com suas realidades. Conseguir um financiamento é difícil. Por conta da informalidade, por serem mulheres e negras, segundo muitos depoimentos.

Apesar disso as empreendedoras negras têm índices de inadimplência mais baixos. Mesmo assim quando conseguem crédito são valores menores e com juros mais altos do que os homens. Outro problema é a dificuldade em fazer networking. Alguns grupos compartilham oportunidades de trabalho entre si, mas as mulheres negras não participam disso.

Pela Firgun já passaram diversas empreendedoras negras com histórias parecidas, no entanto encontraram em nossa plataforma uma solução. A partir do Fundo Periferia Empreendedora e por meio dos empréstimos coletivos que realizamos, estamos multiplicando oportunidades para elas.

O microcrédito como ferramenta de transformação

Toda a sociedade é responsável pelo que foi descrito nesse texto. Por isso devemos nos unir ao redor de soluções que proporcionem e garantam a justiça social e o desenvolvimento da população brasileira como um todo com equidade.

O microcrédito é uma solução possível, mas não é a bala de prata que vai solucionar todos os problemas. Ele é uma ferramenta de transformação que pode ajudar a melhorar a capacidade produtiva das empreendedoras negras, apoiando o aumento de faturamento e criação de empregos. No longo prazo pode ajudar a melhorar a qualidade de vida das famílias envolvidas com o empreendimento. Na Firgun o microcrédito é feito de forma acessível e humanizada, em meio a parcerias com organizações que apoiam a capacitação das empreendedoras, custos baixos e boas condições de pagamento.

Como fazer parte da solução?

Por meio de uma plataforma de empréstimos entre pessoas e pela gestão de soluções como o Fundo Periferia Empreendedora, a Firgun leva investimentos de até R$21.000 para as empreendedoras. O parcelamento pode ser feito em até 36 vezes, a carência chega a 120 dias e o Custo Efetivo Total (CET) varia de zero a 1,85% ao mês, no máximo.

Para fazer parte dessa solução você pode ajudar realizando investimentos a partir de R$25 em nossa plataforma. O dinheiro é retornado em parcelas e a Taxa Interna de Retorno (TIR) pode chegar a 12% ao ano. É uma relação ganha-ganha, a qual beneficia todas as partes: empreendedora, investidor e Firgun.

Outra forma de apoiar é levando doações via pessoa física ou jurídica para o Fundo Periferia Empreendedora. O recurso será revertido em microcrédito acessível e o seu pagamento será direcionado a novas atividades de fomento ao empreendedorismo periférico. Assim criaremos um ciclo virtuoso que, inspirado na garra e determinação presente no sangue e na alma das empreendedoras negras, contribuirá para um mundo mais justo para todos.

Referências

Empreendedorismo Feminino – Mulheres Negras Pioneiras No Brasil

Empreendedorismos e empoderamento de mulheres negras: quais são às ações necessárias para garantir expansão e manutenção da atividade econômica.

Negras ganham menos e sofrem mais com o desemprego do que as brancas

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One thought on “Empreendedoras negras: as primeiras a começarem um negócio do zero

  • 4 de outubro de 2020 at 15:19
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    Excelente o texto! Sou uma microeempreendora negra. Pude experimentar o microcrédito para impulsionar meu empreendimento e foi muito bom. Tenho uma editora com foco em impacto social. A história de minha família é marcada por mulheres fortes, minha avó materna, criada pela avó dela, que havia sido escrava, era poetisa e falava francês, amava ler e se instruir, mas não alcançou outra profissão a não ser a de doméstica. Faz-se necessário que essas histórias sejam contadas, que estejam presentes nos livros escolares e que as mudanças cheguem, efetivamente. Parabéns Firgun!

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